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Diagnóstico especializado em Transtornos do Espectro Autista, TED – Terapia de Troca e Desenvolvimento (Barthélémy & Lelord, 1995), Programa terapêutico multidisciplinar de base neurofuncional incluindo apoio aos pais e à escola. Além disso, oferece programas específicos de Intervenção Precoce.

INTRODUÇÃO
Introdução
Intervenção Precoce
   
 


Três núcleos de prejuízos constituem, a base para o diagnóstico do autismo. O primeiro deles trata-se do prejuízo qualitativo na interação social recíproca; o segundo é o prejuízo qualitativo na comunicação verbal e não verbal e na atividade imaginativa; e o terceiro deles um repertório restritamente delimitado de interesses e atividades.

A sintomatologia das Doenças do Espectro Autistico configura um amplo conjunto de sintomas, afetando a sociabilidade, a linguagem, a capacidade lúdica e uma gama de interesses e atividades da vida diária. Assim é que as reações bizarras, o isolamento, o fechamento sobre si mesmo, com consequentes dificuldades de comunicação com o mundo exterior impõem ao próprio paciente, e por consequência aos seus familiares, uma situação penosa e de perspectiva sombrias.

Após a primeira descrição desse quadro realizada por Léo Kanner em 1943, como “incapacidade inata de estabelecer o contato afetivo habitual com as pessoas”, muito se evoluiu nas pesquisas que a sucederam.

A partir de sua compreensão como um distúrbio de natureza psicológica pelo qual os pais e mais particularmente as mães eram responsabilizadas, historicamente, sua etiologia passou por diferentes considerações até que em 1990, (Lelord) eclodiram as interpretações de suas bases fisiológicas, ligando a desordem do Espectro Autistico, a uma disfunção das atividades cerebrais superiores. Segundo Barthélémy, Hameury e Lelord (1995) o autismo “traduz, uma insuficiência relacional cerebral”(1), um transtorno precoce do funcionamento do sistema nervoso.

Portanto, se o Autismo por um longo tempo foi considerado como um distúrbio de causas psicológicas, o avanço das Neurociências apontam para uma desordem do sistema nervoso na base de uma deficiência relacional. Ainda conforme esses mesmos atores,“argumentos clínicos, fisiológicos e biológicos são a favor de tal concepção, apoiados recentemente pela evidência dos dados expostos por nossa equipe (J.P.Müh, J.Hérault e outros) de uma particularidade gênica.”

Nessa perspectiva, segundo Duché (1995), o transtorno precoce do funcionamento do sistema nervoso central são evidenciados por “[...] exames eletrofisiológicos que mostram que tais crianças ‘filtram’ mal as mensagens, que eles as associam de modo irregular e que suas respostas às estimulações são instáveis e variáveis, o que testemunha uma desordem basal da modulação cerebral”(2).

Duché (1995) afirma que dessas pesquisas surgiram técnicas terapêuticas originais, baseadas em uma perspectiva do desenvolvimento neuropsicológico e fisiológico; a base dessas terapias consiste em estimular as funções deficientes, em mobilizar a atividade dos sistemas integrativos cerebrais realizando assim a reeducação das funções. Essas aquisições que ajudam o contato e a comunicação fazem regredir os comportamentos bizarros, melhoram a adaptação e confortam o meio familiar (3).

Esta equipe de pesquisadores propõe como eletiva a Therapie D’Echange et de Developpement – TED – como uma alternativa eficiente à evolução de crianças portadoras de autismo. As terapias de troca e de desenvolvimento apoiam-se sobre as funções neuropsicológicas por um lado, por outro sobre os princípios da aquisição livre, do papel fisiológico da motricidade e da imitação livre. A partir de uma análise funcional clínica e eletrofisiológica cuidadosamente elaborada se compõe um projeto psico-educativo individualizado, organizado a partir das deficiências e potencialidades a serem desenvolvidas a partir de jogos em um programa continuado. Três princípios fundamentais norteiam a atitude que envolve terapeuta e paciente durante cada sessão que se passa através de jogos: - a tranquilidade, a disponibilidade e a reciprocidade. Dependendo do grau evolutivo de cada criança, essas sessões se passam em atendimento individual, ou em pequenos grupos.

Ainda estes pesquisadores indicam que a atuação coerente a esses princípios, tanto da equipe multidisciplinar quanto da família, representam um fator de sustentação e de provável sucesso ao programa.

Essa breve apresentação dos princípios gerais da TED(4) nos parece útil por indicar algumas bases validadas para tratamento de crianças portadoras de autismo e que nos permitem estabelecer algumas correlações com o Método Ramain.

O primeiro aspecto que nos interessa destacar é a base neuropsicológica sobre a qual ambos se apoiam como fator de integração do sistema nervoso, dos sistemas subcortical, cortical e neocortical. Segundo, que ambos se apoiam sobre a eleição de um programa definido a partir de um preciso levantamento, buscando potencializar e harmonizar as expressões funcionais, sem entretanto tomar como meta o resultado em si de cada situação proposta. Fator relevante é que ambos invocam uma relação terapêutica que está centrada no valor relacional da experiência, em uma práxis que provoca uma evolução. Terceiro, ambos, Ramain e TED se apoiam em um trabalho de equipe multidisciplinar e com intenções de inclusão efetiva da família no processo como um todo.

O trabalho individual em TED-terapia de Troca e Desenvolvimento, constitui um patamar de base a partir do qual busca-se atingir novas etapas de desenvolvimento: - a inserção desses pacientes em pequenos grupos, através de uma perspectiva que, ao agir sobre as funções de base ao neurodesenvolvimento pudesse impulsionar mais diretamente seu processo de adaptação psicossocial.

Segundo Adrien (2001) e outros diferentes autores, um dos critérios centrais do diagnóstico de autismo refere-se à “repetição” - necessidade de manter o mesmo ambiente e resistência ou recusa à mudança - relacionado a anormalidade no uso flexível das habilidades, Reafirmando as inabilidades da criança autista em partilhar e regular a afetividade e atenção com o outro, autores como Sigman e Mundy (1989), Kasari et al. (1993) e Trevarthen et al., (1996) enfatizam que esse procedimento emocional comprometido parece estar nas bases do déficit social dos quadros de autismo. McEvoy, Rogers e Pennington (1993) encontraram relação entre o déficit de função executiva e atenção conjunta e interação social em crianças autistas pequenas e relacionaram esses dois aspectos a erros perseverativos.

Diferentes autores consideram os déficits da função executiva como principais e possíveis responsáveis pelas desordens sociais e cognitivas das crianças autistas (Rogers & Pennington, 1991; Hughes & Russell, 1993; e Hughes, Russell & Robins, 1994).

No Método Ramain as funções executivas são amplamente mobilizadas pela complexidade e pelo caráter particular que a busca de resolução de cada exercício propõe, uma vez que uma “resposta automática” ou precipitada não seria compatível à demanda. Os exercícios propostos não são escolhidos aleatoriamente pelo psicoterapeuta Ramain; eles guardam entre si uma distribuição cuidadosamente prevista, pois seu encadeamento tem uma função importante no que diz respeito à diversidade necessária ao rompimento dos estereótipos mentais. Cada exercício proposto solicita a participação de esquemas motores e cognitivos, concomitantemente à mobilização emocional dada pela própria vivência dos exercícios e pelas diferentes intervenções do psicoterapeuta ou dos demais participantes.

Considerando-se que os dossiês do Método Ramain (Fajardo, 1991) encontravam-se programados para atingir fases de desenvolvimento mais evoluídas e essa demanda clínica, Maria Clara Nassif, empreendeu-se na criação de um instrumental particular a esse fim, o dossier Pré-F do Método Ramain, que já encontra-se editado.

A partir dessas condições e do caráter sistêmico desses quadros, por um lado, e de outro, do enfoque multidimensional proposto pelo Método Ramain e de sua perspectiva de incidir sobre as estruturas mentais , flexibilizando-as ,optamos em nosso trabalho clínico por compor um projeto de intervenções em que TED e Ramain pudessem compor um amplo programa de base neurodesenvolvimental, cada qual ao seu tempo, porém, que em sua abrangência pudessem contemplar as diferentes etapas de um longo processo evolutivo de estruturação orgânica e mental, traduzidas por atitudes expressivas de menor “déficit social”..

Mantendo essas perspectivas o trabalho multidisciplinar em Autismo, abrange as intervenções nas áreas de comunicação e linguagem, de seguimento sistemático junto aos pais e/ou cuidadores, junto às instituições escolares , aos médicos e demais colaboradores envolvidos diretamente nos cuidados de cada paciente.

É de fundamental importância a articulação contínua entre os participantes dessa rede de intervenção afim de que se possa usufruir de uma coerência que age como o fio condutor de um processo, que em sua continuidade tende a provocar um conforto e crescimento de todos os envolvidos , sobretudo o do próprio paciente.

Maria Clara Nassif - Agosto de 2011


(1) (Catherine Barthélémy (org.), L’autisme de l’enfant. La therapie d’échange et de développement, Paris: Expansion Scientifique Française, 1995, p. 5)
(2) (Catherine Barthélémy (org.), L’autisme de l’enfant. La therapie d’échange et de développement, Prefácio, Paris: Expansion Scientifique Française, 1995, p.1)
(3) (Catherine Barthélémy (org.), L’autisme de l’enfant. La therapie d’échange et de développement, Paris: Expansion Scientifique Française, 1995, p. 5)
(4) (Catherine Barthélémy (org.), L’autisme de l’enfant. La thérapie d’échange et de développement, Aprofundar em neurophysiologie aux soins psycho-éducatifs, Paris: Expansion Scientifique Française, 1995, pp. 23-64)

 
   
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